A CAPELA DE NOSSA SENHORA DA LAPA


 

No Arquivo Distrital de Braga, conservam-se três provisões relativas à Capela de Nossa Senhora da Lapa que Manuel Nunes mandou construir na sua quinta de Balasar.

A primeira, de catorze páginas, é o “Registo de provisão para se edificar uma capela”. As primeiras diligências começaram em meados de 1757 e as últimas em meados de 1758. A autorização veio em 2 de Junho.

A segunda, a autorizar a bênção da capela, foi pedida talvez em 11 de Março de 1759 e concedida em 12.

Na terceira, Manuel Nunes pede autorização para colocar na capela um confessionário; data de 21 de Agosto de 1759, quando já devia estar paralítico.

 

A provisão para autorizar a construção da Capela de Nossa Senhora da Lapa


A provisão para autorizar a construção da Capela de Nossa Senhora da Lapa implicou vários documentos, o primeiro dos quais foi súplica, que não tem data; mas a resposta à súplica inicial veio em 8 de Junho de 1757. Era este o teor da súplica:

 

Fachada da Capela de Nossa Senhora da Lapa na Quinta de Balasar.

 

Registo de Provisão para se edificar uma capela.

Ex.mo e Rev.mo Senhor

Diz Manuel Nunes Rodrigues, da freguesia de Balasar, assistente agora na da Ponte do Louro, que, entre a sua Quinta de Balasar e Igreja da mesma, passa um rio que nas enchentes impede que o suplicante e a sua família e mais moradores contíguos à mesma quinta possam ir ouvir Missa à dita Igreja e para evitar este tão grande prejuízo deseja o suplicante uma capela na mesma quinta, sobre si, com porta para a estrada pública, dotando-a com o necessário, e como não pode fazer a obra sem licença por isso pede a Vossa Ex.cia Rev.ma se digne conceder licença ao suplicante, precedendo todos os requisitos necessários, e receberá mercê.

A justificação de Manuel Nunes Rodrigues é generosa, caridosa até, mas se calhar não contém as verdadeiras razões dele. Esperava-se que fosse gratidão para com Nossa Senhora da Lapa, como aliás virá a constar noutro momento.

É de cerca de um ano após o testamento.

Um documento que pode não ter sido fácil de conseguir foi a autorização do reitor de Balasar, mas foi o primeiro a ser tratado; veio em 5 de Maio. Escreveu o pároco:

            Ex.mo e Rev.mo Senhor

A capela que o suplicante pretende fazer útil é para esse e mais vizinhos e também para administrarem nela os sacramentos quando for necessário e conveniente; alguma necessidade há dela pela razão que ele expõe e por isso, declarando-lhe a invocação e constituindo-lhe fábrica em bens estáveis e fazendo-a sem tribuna e por forma que esteja a chave pronta para os párocos desta freguesia irem a ela celebrar e administrar dela os sacramentos e observando-se no celebrar o disposto na Constituição do Arcebispado e salvo o direito paroquial para as oblações e esmolas que nela houver e em tudo o mais que competir, não impugno a sua edificação, mas Vossa Excelência Reverendíssima, que Deus guarde, decretará o que for servido, que a tudo é certa a minha obediência ao despacho de Vossa Excelência Reverendíssima.

Recebido hoje, 5 dias do mês de Julho deste presente ano de 1757 anos.

Aos pés de Vossa Excelência Reverendíssima,

O Reitor António da Silva e Sousa

Em 7 de Maio de 1758, Manuel Nunes estabeleceu o dote da capela:

Em nome de Deus, amém.

Saibam quantos este público instrumento de dote e património de capela, ou como em direito melhor haja lugar e mais válido seja, virem, que no ano de nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil setecentos e cinquenta e oito anos, ao primeiro dia do mês de Maio do dito ano, neste Couto e Honra de Fralães[1], junto à Ponte do Olho Marinho[2], aonde eu tabelião fui, por ser distrito deste dito couto, aí perante mim e testemunhas ao diante nomeadas e assinadas, apareceram presentes Manuel Nunes Rodrigues e sua mulher, Dona Benta Carneiro da Grã-Magriço Souto Maior, moradores na sua Quinta da Ponte, freguesia de Balasar, e de presente assistente na do Louro, termo da vila de Barcelos, e ambos pessoas reconhecidas de mim tabelião[3] e testemunhas deste instrumento, do que dou fé, na presença das quais e de mim tabelião, por ele dito Manuel Nunes Rodrigues e a dita sua mulher foi dito que pela grande devoção que tinham à Senhora da Lapa, desta invocação, lhe queriam fazer uma capela dentro na sua quinta supra dita de Balasar e por isso queriam fazer seu dote; e com efeito disseram que por este presente instrumento e na melhor forma de direito davam e dotavam para património da dita capela e fábrica dela o terço de todos os bens de raiz da sua Quinta de Meixedo, termo de Ponte de Lima, que todos são herdade dízima a Deus, e todo o terço da dita quinta e suas pertenças lhe seguram para fábrica e reparos da dita capela e nela desde já cedem e trespassam e transferem todos os bens do dito terço atrás declarados para deles e de seus rendimentos se utilizar a mesma fábrica e reparos necessários da dita capela, que tudo lhe hão por doado e largado de hoje deste dia para todo o sempre e se obrigam eles outorgantes todos juntos e cada um in solidum por suas pessoas e bens móveis e de raiz, presentes e futuros, e terços de suas almas, e que tudo expressamente hipotecam a fazer este dote património bom e de paz, firme, seguro e valioso a todo o tempo do mundo na forma que dito fica. (…)

Agora a provisão propriamente dita:

D. Aleixo de Miranda Henriques, da Ordem dos Pregadores, Bispo de Miranda e Governador deste Arcebispado de Braga, Primaz das Espanhas, etc., pela presente, vista a petição retro, em que nos representou o suplicante Manuel Nunes Rodrigues, da freguesia de Balasar e assistente na de Ponte do Louro, e resposta do Reverendo Desembargador-Provisor-geral da Mitra Primaz e mais documentos juntos e o mais consideramos, fazemos mercê de lhe concedermos licença para que com efeito possa edificar a capela de que trata, a qual se fará com toda a perfeição devida, com a porta principal para o público, sem outra alguma fresta nem tribuna para casa particular, tudo sem prejuízo dos direitos paroquiais e, concluída que seja de todo o necessário, requererá licença para a sua bênção. (…)

 

 A provisão para benzer a capela

Em 10 de Março de 1759, Manuel Nunes pediu licença para benzer a capela de Nossa Senhora da Lapa. A autorização começava assim:

Diz Manuel Nunes Rodrigues, de Santa Eulália de Balasar, que ele alcançou a licença inclusa para edificar uma capela na sua Quinta da Ponte, sita na mesma freguesia, com a invocação de Nossa Senhora da Lapa, e porque a dita capela está acabada com toda a perfeição e tem todo o necessário para nela se celebrar os ofícios divinos, para o que necessita de ser benzida, pede a Vossa Alteza Sereníssima seja servido conceder a dita licença para que o Rev. Pároco benza a dita capela na forma do Ritual Romano (…)

Em Setembro, voltou a dirigir-se à autoridade eclesiástica pedindo que o autorizasse a colocar na sua capela um confessionário. A capela estava “finda com grandeza e perfeição” e o que desejava era “para maior honra e glória de Deus”[4].

Conforme está hoje, a casa tem acesso particular à capela, contrariando aquilo a que Manuel Nunes se tinha comprometido. É possível que originalmente a casa não chegasse até lá.

Foi de 1758 que Manuel Nunes datou a lápide sobre a sepultura. Quando faleceu, foi nela sepultado.

 

O Pe. Ângelo de Sequeira

Que terá levado Manuel Nunes, e certamente a esposa, a escolher a invocação de Nossa Senhora da Lapa para a sua capela?

Desde 1753, pregava em Portugal, primeiro em Lisboa e arredores, anos depois no Porto e também arredores, um sacerdote de São Paulo, Brasil (que então, recorde-se, ainda não era país independente), de nome Ângelo de Sequeira. A sua pregação ficou conhecida sobretudo pela divulgação que fez duma renovada devoção a Nossa Senhora da Lapa.

Este pregador teve grande êxito, nomeadamente cá no norte. Foi no seguimento da sua pregação que se construíram a Igreja da Lapa no Porto e as da mesma invocação em Vila do Conde, na Póvoa, em Braga, etc. Sabe-se que a vaga da nova devoção à Senhora da Lapa se fez sentir em terras próximas de Balasar, como Junqueira, Chorente, Santagões (hoje Bagunte), Macieira da Maia.

 

Pormenor da porta da Capela de Nossa Senhora da Lapa, uma invejável obra de arte barroca.

 

 O Pe. Ângelo de Sequeira trazia consigo uma imagem de Nossa Senhora da Lapa que foi sendo copiada por muitas destas terras e por isso também foi cópia dela a que se venerou na Capela da Quinta.

Encontram-se em linha duas obras do Pe. Ângelo de Sequeira:

Botica preciosa e thesouro precioso da Lapa, em que como em botica e thesouro se acham todos os remedios para o corpo, para a alma e para a vida. É uma receita da vocação dos Santos para remedio de todas as enfermidades, Lisboa, 1754; com 4 estampas.

Livro do vinde e vêde, e do sermão do dia do juizo universal, em que se chama a todos os viventes para virem e vêrem umas leves sombras do ultimo dia, o mais tremendo e rigoroso do mundo, Lisboa, 1758[5].

  

Um dos artísticos pináculos sobre uma das extremidades da frente da capela.

 

 

A imagem da Senhora da Lapa

 

Consideremos a imagem de Nossa Senhora da Lapa que se venerou na capela da Quinta de Balasar, isto é, a imagem que D. Benta e o marido adquiriram e veneraram.

Se prescindíssemos dos querubins que lhe estão aos pés, poderíamos ver nela apenas uma mulher de alto escalão económico e social.

Uma espécie de echarpe envolve-lhe os ombros, sobe pelo lado esquerdo da cabeça e desce depois pelo lado oposto. Não se trata de um véu. A tal echarpe tanto cobre como descobre pois deixa o cabelo, bem cuidado, à vista.

 

 Imagem de Nossa Senhora da Lapa que se venerou na Capela da Quinta.

 

Um manto – o celebrado manto da Mãe de Deus – desce dos ombros até perto dos pés, mas deixa uma larga abertura na frente, o que permite admirar não só a riqueza do forro, mas ainda uma espécie de capa sob o manto, também aberta, possibilitando, por sua vez, ver o vestido, que desce até ao suporte de nuvens em que assentam os pés da Senhora.

É uma escultura de imponente qualidade e tamanho – 135 cm de alto e 70 cm de “envergadura” ao fundo do mato – e em bom estado de conservação, excepto a pintura.

Esta imagem é uma cópia da do Pe. Ângelo de Sequeira. As semelhanças face ao original são notórias. A postura geral é a mesma, o volume do corpo é proporcionalmente o mesmo, as roupagens correspondem-se.

Algumas significativas diferenças: o manto, a capa e o vestido da imagem de origem são “estampados”, não lisos, antes decorados com ramagens. A cabeça está muito mais coberta, ao que parece, com um lenço. Pousa sobre ela uma coroa, mas a de Balasar também a teve. Uma diferença muito significativa, pelo simbolismo, é um sol que a ilumina a partir de trás, mais exactamente por detrás do busto, atribuindo à imagem um notório carácter sobrenatural.

Evidentemente, Manuel Nunes e a esposa estiveram atentos à pregação do Pe. Ângelo de Sequeira.

 

A lápide tumular de Manuel Nunes Rodrigues


A inscrição completa da lápide tumular de Manuel Nunes na capela da Quinta diz assim:

ESTA CAPELA E SA MDO FAZER MEL NVNES RZ~ E NELA qER SER EMTERADO SE FALESER NESTA qVINTA OV PERTO DELA ANO D 1758

A saber: “Esta capela e sepultura mandou fazer Manuel Nunes Rodrigues e nela quer ser enterrado se falecer nesta quinta ou perto dela. Ano de 1758”.

O recado à família e ao testamenteiro para ser sepultado ali corrige o que ordenara antes no testamento e que reviu no codicilo.

 

Visita à Capela de Nossa Senhora da Lapa


Em Maio de 2015, tivemos oportunidade de visitar a Capela de Nossa Senhora da Lapa da Quinta de Balasar. Na altura, queríamos principalmente fotografar a lápide de Manuel Nunes. Mas tirámos duas fotografias do interior da capela. Era então uma ruína. Não havia altar nem imagens. Mas, pelo que se via, pareceu-nos que deveria ter contrastado bastante em qualidade – falta dela – com o exterior.

A parede onde se devia ter encontrado o retábulo era uma superfície lisa, mas com uma abertura ao centro, ao modo de um nicho. Parecia, porém, demasiado pequena para aí colocar a imagem da padroeira. Aos lados, conservavam-se duas mísulas muito vulgares.

  

Modilhão do interior da Capela de Nossa Senhora da Lapa.

 

 Não houve retábulo propriamente dito, muito menos barroco, em talha, antes um “retábulo” neoclássico… em pintura.

Esta capela tem uma fachada de óptimo efeito visual. A porta é bem proporcionada, muito artística e de linhas modernas (paga a pena compará-la com a da Igreja de Nossa Senhora da Lapa, de Vila do Conde). Trata-se decerto de obra planeada por pessoa culta, não improvisada por qualquer mestre-pedreiro.

Quando se entra, verifica-se que é também muito espaçosa.

 

 António Rodrigues

Em Minhotães, já no concelho de Barcelos, há a Quinta da Devesinha. Em meados do século XVIII, pertenceu ela ao mestre arquitecto António Rodrigues, que colaborou com Nicolau Nasoni.

Como Manuel Nunes tinha o nome completo de Manuel Nunes Rodrigues, não era impossível que ele até fosse seu parente. Mas ainda menos impossível era a hipótese de ele lhe entregar a concretização das obras que queria fazer na sua quinta. Mas nenhum documento que conheçamos confirma isto.

 

Fotografia do altar da Capela da Quinta, em tempo em que ela estava preparada para o culto e que nos foi facultada no Museu da Póvoa de Varzim.



[1] O documento foi feito no Couto e Honra de Fralães. Se Manuel Nunes Rodrigues foi a Fralães fazer este documento, pode também lá ter feito outros. Os livros do tabelião encontram-se em Braga.

[2] Ainda nos recordamos desta nascente que brotava no meio dum campo junto ao rio Este.

[3] Donde as conheceria?

[4] Estava pronta a capela e porventura estariam igualmente prontas as obras da casa que certamente o tinham obrigado a ir para o Louro.

[5] Para mais informação sobre o Pe. Ângelo de Sequeira e sua pregação, consulte-se o nosso livrinho A Igreja de Nossa Senhora da Lapa de Vila do Conde.

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