PAIS E IRMÃOS DE D. BENTA. O ESTRANHO CASAMENTO
Alexandre Carneiro da Grã-Magriço, pai de D. Benta.
Alexandre
Carneiro da Grã-Magriço, pai de D. Benta, casou em 1722 com D. Maria Carneira de Sá, de Outiz, filha de
António Carneiro de Sá, já então defunto, e de Maria Monteira, da freguesia de
Mouquim, e faleceu em 16 Maio de 1734. Veja-se o assento de casamento:
Aos dois dias do mês de Dezembro
do ano de mil setecentos e vinte e dois, se receberam em minha presença e maior
número de quinze ou vinte pessoas que estavam presentes, entre elas Martinho
Pinheiro, Manuel Gonçalves, Luís Tomé da Graça, todos desta freguesia, Alexandre Carneiro da Grã-Magriço Sotomaior,
filho de Manuel Carneiro da Grã-Magriço e de sua mulher Dona Paula de Sousa
Barbosa, da freguesia de Santa Eulália de Balasar, com Maria Carneira de Sá,
filha de António Carneiro de Sá, já defunto, desta freguesia de Santiago de
Outiz, e de Maria Monteira, da freguesia de Mouquim, todos deste
Arcebispado, e sendo primeiro ouvidos os banhos não só nesta freguesia, mas em
Balasar, como me constou por certidão do reverendo pároco dessa freguesia, em
que em tudo se observou a disposição do Sagrado Concílio Tridentino e a
Constituição deste arcebispado; e para constar fiz este assento em dia, mês,
ano ut supra.
Vigário José Pinto da Silva.
Martinho Gonçalves.
Jácome da Graça.
Martinho + Pinheiro.
Os irmãos
O casal teve
quatro filhos:
Pedro, o mais
velho, nascido em 1725 e falecido
em 1737, com doze anos.
Padrinhos:
Benta – 17/2/
1727
Padrinhos:
Ludovina e o Vigário de S. Simão da Junqueira
Ana Maria – 31/10/1730
Padrinhos:
Miguel Ferreira, de Gondifelos, e D. Adriana de Magalhães, de S. Pedro de
Esmeriz
Margarida –
18/12/1732
Padrinhos: o
abade de Gondifelos e D. Margarida Antónia Máxima de Vilhena, do Convento de
Vairão.
Alexandre
Carneiro da Grã-Magriço morreu em 1734:
Aos
16 dias do mês de Maio de 1734 faleceu Alexandre Carneiro da Grã-Magriço; foi confessado e ungido
e não recebeu a Sagrada Comunhão por estar fora do seu juízo. Foi sepultado
dentro da igreja, pegado ao arco da capela-mor, de fronte do altar de Nossa Senhora.
E por assim ser verdade, fiz este assento, que assinei. Era ut supra.
O Reitor António da Silva.
A igreja era
naturalmente a do Matinho. O lugar onde o sepultaram era reservado a
individualidades.
D. Benta ficava
órfã, mas a sua orfandade era mitigada já que o avô só faleceria muitos anos
mais tarde e até casaria em segundas núpcias em 3 de Junho de 1737[1].
Foi nesse ano que o Pedro morreu, deixando a mãe, que já era viúva, só, com
três meninas:
Aos 5 dias do mês de Dezembro de
1737, faleceu Pedro, filho de D. Maria
Carneira, viúva que ficou de Alexandre Carneiro, desta freguesia de Santa
Eulália de Balasar; foi ungido somente e absolvido sub conditione por não estar em seu juízo. Abintestado. Foi sepultado
dentro na Igreja, junto à pia baptismal, à parte do sul. E por assim ser
verdade fiz este assento, que assinei. Era ut
supra.
O Reitor António da Silva e Sousa.
À hora da
morte, como antes o pai, o Pedro não estava em seu juízo. A expressão sub conditione significa sob a condição de,
isto é, sob a condição de ele ainda estar em condições de se arrepender. A
palavra abintestado indica que morreu sem testamento, o que era de esperar
tratando-se duma criança.
D. Benta, que
tinha então dez anos, passou a ser a herdeira.
Foi este o
assento de baptismo D. Benta:
Benta,
filha legítima de Alexandre Carneiro e de sua mulher, D. Maria Carneira, da
aldeia da Ponte, nasceu aos 17 dias do mês de Fevereiro de 1727;
foi baptizada por mim, Padre João da Costa, cura desta freguesia, aos 23 dias
do mesmo mês e ano; foram padrinhos o Padre D. António Gavião, vigário de São
Simão [da Junqueira], e Ludovina,
solteira, filha de Manuel Carneiro, desta freguesia, estando por testemunhas o
Padre Miguel Martins e Domingos Martins, ambos da freguesia de Gondifelos, e
Manuel Carneiro da Grã.
E por ser verdade, fiz este termo,
que assinei. Era ut supra.
O Padre Miguel Martins.
O Cura, o Padre João da Costa.
O Pe. João da
Costa, cura de Balasar, era de Escariz, da família paterna do célebre
brasileiro Manuel da Costa Vale. Desconhecemos a relação que unia o vigário de
S. Simão da Junqueira aos Carneiros da Grã-Magriço. O tratamento de dom que a
este é atribuído tem a ver com o facto de se tratar de cónego regrante que
talvez tivesse sido prior do mosteiro. D. Ludovina Josefa Magriça de Sotomaior
(repare-se na originalidade do nome), a madrinha de D. Benta, era tia, irmã do
pai; nascera em 13 de Novembro de 1705 e casaria, em 4 de Fevereiro de 1730,
com Cristóvão de Babo Machado da Silva e Bulhões, de S. Pedro de Esmeriz.
Em 1727, na
quinta, viviam ainda o idoso Manuel Carneiro da Grã, o avô, Manuel Carneiro da
Grã-Magriço, duas tias, mais uma criada[2].
A D. Benta teve
cedo de suportar a dor da morte do pai e depois a do irmão, mas esperava-a uma
outra. Em 1739, quando tinha doze anos, a mãe, “D. Maria Carneiro de Sá,
viúva”, foi publicamente “admoestada” por andar envolvida com um homem, com
certeza um moleiro vizinho, de nome Custódio dos Santos[3].
A mancha na reputação de D. Maria Carneiro de Sá ia atingir o bom nome das
filhas, que certamente não tinham culpa nenhuma. E não se tratou de caso
isolado pois, em 1742, a mesma D. Maria Carneiro de Sá foi considerada
“cúmplice” daquele moleiro. É assim que consta do Roteiro dos Culpados, que o
Pe. Franquelim Neiva
Capela e portal da Quinta de D.
Benta.
O estranho casamento de D. Benta
Não se conserva
o livro onde devia constar o assento de casamento de D. Benta com Manuel Nunes,
mas é certo que casou em 1741 pois teve a primeira filha em 1742. Tratou-se dum
casamento estranho.
O noivo quase
poderia ser avô da noiva: enquanto ela tinha catorze anos, ele devia ter perto
de cinquenta! Se calhar era mais idoso do que a sogra, que morreu catorze anos
depois dele.
Como terá sido
isso possível?
A orfandade de
D. Benta e o mau comportamento da mãe hão-de ter dado o seu contributo: é
improvável que um pai em seu sereno juízo aceitasse tal enormidade.
Manuel Nunes,
ou Manuel Nunes Rodrigues, de seu nome completo, o noivo, que deve ter sido um
negociante no Brasil, além do dinheiro, trouxera de lá ao menos três escravos,
dois homens (o Lourenço e o José) e uma negra jovem (a Natália), para o
servirem. Já por cá estava em 1738. Devia ter carruagem e devia ter montado
casa à medida das suas largas posses. Além disso, continuaria a negociar para
rentabilizar a sua fortuna.
Um homem
solteiro assim seria porventura cobiçado pelas famílias rurais fidalgas da
vizinhança, por norma com poucos recursos. É provável que ele se tivesse
relacionado cedo com os Carneiros de Sá, de Outiz, e que tivesse sido por
intermédio deles que chegou a Balasar. Embora filha natural, a madrinha de
Manuel Nunes era dos Carneiros de Sá.
Pela idade,
Manuel Nunes não deveria ter casado com a jovem D. Benta, mas com a mãe dela.
Mas preferiu o pouco defensável casamento com a adolescente.
Poderia esta
jovem esposa ter respeito por tal marido? Não lhe fugiriam constantemente os
olhos para os rapazes da sua idade? O alto nível de vida e posição social que o
dinheiro lhe proporcionava seriam suficientes para lhe calar os impulsos
juvenis?
Quem sabe, há
pessoas muito originais. O seu comportamento de esposa foi irrepreensível,
segundo o testemunho do marido.
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