D. BENTA VIÚVA
Quando
enviuvou, em 1760, D. Benta tinha 33 anos. Estivera solteira catorze e casada
dezanove. Era agora uma jovem viúva e rica, com quatro filhos já crescidos. Se
de facto a Joana Benta tinha falecido, restavam-lhe a Maria Josefa com 15 anos,
o Manuel com 13, a Francisca Violanta com 10 e a Teresa com 7. A instrução das
meninas talvez fosse ministrada em casa e resumir-se-ia a ler e escrever, mais
certas tarefas especificamente femininas; já o rapaz quase de certeza frequentava
ou iria frequentar um colégio, como já devia ter acontecido com o pai e o avô.
A destreza na escrita que manifestaram supõe uma instrução escolar demorada.
Ainda eram
vivas a mãe de D. Benta e o avô paterno; as duas irmãs de D. Benta já tinham
casado. Ainda assim, tinha uma casa com bastante gente.
Mas o avô
morreu um ano depois, em 1761, a mãe essa faleceria apenas em 8 de Março de
1774, um mês antes da mesma D. Benta, e seria sepultada no túmulo de Manuel
Nunes[1].
A possibilidade
aventada por Manuel Nunes de alguma das filhas se fazer freira não se
verificou. De acordo com Felgueiras Gaio no seu Nobiliário das Famílias de Portugal, Maria Josefa e a Teresa ficaram solteiras, o que era comum no tempo
em filhos de famílias nobres.
Embora os
filhos tivessem tutor, o cunhado Pe. Remígio, a D. Benta devia restar uma
margem significativa de liberdade para gerir a sua fortuna. Parece que a geriu
com largueza de vistas, porventura com alguma prodigalidade. Entre outras
benemerências que praticou, conta-se a dispendiosa obra da ponte que ficou com
o seu nome.
O dia 31 de
Agosto de 1766 há-de ter sido um dia grande para esta mãe de família: casava-se
a filha Francisca Violanta.
Manuel da Silva Reis Álvares,
filho legítimo do capitão João Dias Ferido e de sua mulher Josefa da Silva
Reis, da freguesia de Alvarelhos, comarca do arcebispado do Porto, neto pela
parte paterna de João dias e de sua mulher Maria Antónia, da freguesia de S. Martinho
do Campo, e pela parte materna neto de João Álvares de Amorim e de sua mulher
Feliciana da Silva Reis, e D. Francisca
Violanta, filha legítima de Manuel Nunes e de sua mulher D. Benta Carneiro
Magriça, do lugar da Igreja, neta pela parte paterna de João Nunes e de sua
mulher Domingas Rodrigues, da freguesia de S. Lucrécia da Ponte do Louro, e
pela materna neta de Alexandre Carneiro e de sua mulher D. Maria Carneira de
Sá, do lugar da Igreja desta freguesia de Santa Eulália de Balasar, na forma
que manda o Sagrado Concílio Tridentino e constituições deste arcebispado, se
receberam in facie Ecclesiae, em
presença do Padre Remígio Nunes da freguesia da Ponte do Louro, com minha
licença, estando presentes as testemunhas abaixo mencionadas, por palavras de
presente, aos 31 dias do mês de Agosto do
ano de 1766, estando testemunhas Manuel Carneiro da Grã-Magriço, do lugar
da Igreja, o Padre António da Silva, coadjutor desta mesma igreja, Pe. João da
Costa, todos desta freguesia.
E por assim ser verdade fiz este
termo, que assino. Era ut supra.
O Reitor António da Silva e Sousa.
O Coadjutor António da Silva.
Pe. João da Costa.
Manuel Carneiro da Grã-Magriço.
Ao casamento
presidiu o tio, Padre Remígio Nunes.
O Manuel Carneiro
da Grã-Magriço que remata o assento é o irmão da noiva. Casaria no ano seguinte
e iria residir para a Póvoa.
Manuel da Silva
Reis Álvares seria em breve promovido a capitão. O casal foi pai de catorze
filhos, alguns dos quais poderão ter falecido de tenra idade.
Segundo o Abade
Sousa Maia, em Alvarelhos, no lugar de Cidoi, ficava a casa brasonada desta
família.
O Pe. Remígio testamenteiro
Ao tempo da sua
viuvez, D. Benta teve com certeza um relacionamento estreito e frequente com o
cunhado Pe. Remígio. Como presidiu ao casamento da Francisca Violanta, tal relacionamento
seria cordato, até desejado.
Guarda-se no
arquivo municipal de Vila do Conde um documento de seis páginas no qual o Pe.
Remígio pede, como testamenteiro, que lhe seja reconhecido o senhorio dumas
casas que haviam sido de Manuel Nunes e que ficavam no Porto.
Foi padrinho da
primeira filha de Manuel Carneiro da Grã-Magriço.
A morte de D. Benta Póvoa
Para D. Benta,
para a sua mãe e sobretudo para as filhas, Balasar terá começado a ser pouco
interessante e D. Benta ter-se-á mudado para Vila do Conde[2].
Em 1774, com 47
anos, sentindo-se mal, foi para a Póvoa de Varzim, para casa do filho, e aí se
finou. Foi sepultada na matriz local, conforme assento de óbito:
Em os catorze dias do mês de Abril
do ano de mil setecentos e setenta e quatro faleceu com todos os sacramentos da
Santa Igreja D. Benta Carneiro da
Grã-Magriço, moradora em Vila do
Conde, e por adoecer nesta vila da Póvoa de Varzim, em casa de seu filho
Manuel Carneiro, foi depositado seu corpo na igreja matriz desta freguesia e
nela sepultada em o dia dezasseis do dito mês, na sepultura dezasseis, com assistência
de padres desta vila e de outras freguesias e de religiosos de São Francisco de
Vila do Conde e com todos se lhe fez o ofício de presente; e para constar fiz
este assento, que assinei. Era ut supra.
O Reitor Diogo Ferreira.
Em documentos
camarários vila-condenses, a viúva de Manuel Nunes é conhecida como D. Benta de
Balasar.
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