A FAMÍLIA DE MANUEL NUNES NO SEU TESTAMENTO

 

No testamento

Em 9 de Julho de 1756, Manuel Nunes foi ao Porto[1] e achou-se lá mal, talvez bastante mal. Chamou então o licenciado José da Silva Castro para lhe escrever um longo testamento: o testamento mais comum ocupava lá para uma página escrita à mão, o dele alonga-se por onze.

Afora as disposições usuais dum documento como este – declaração de fé nas verdades ensinadas pela Igreja Católica, identificação do testamenteiro, os bens d’alma, das disposições relativas à viúva, à repartição da herança pelos filhos, à sua educação – deduzem-se da leitura algumas ideias do testador, como é a valorização da sua família e a desvalorização da de D. Benta, o seu jeito empreendedor e viajante, um quadro variado de contactos sociais, a atenção aos humildes, a sua piedade, etc.

Ele não afirma que os familiares da esposa sejam uns inúteis ou até perversos, mas ou os ignora ou os refere por motivos negativos: os quatro nomes que propõe para testamenteiro são todos da sua família do Louro; propõe que a D. Benta retirem a tutela dos filhos e os coloquem sob a orientação do mesmo administrador; deseja que a sua irmã Mariana tenha um cuidado especial na educação deles. Deixa pequenas quantias a familiares ou afilhados seus, mas nenhuma aos da esposa. Menciona uma vez o nome da sogra e do avô de D. Benta, para dizer que lhe devem dinheiro e deixa crer que a devolução dele não estará muito garantida.

Apesar de no século XVIII as vias de comunicação serem ainda de tão má qualidade, Manuel Nunes aparenta ser homem de muitas deslocações e de múltiplos contactos.

Se não soubéssemos que ele tinha feito fortuna no Brasil, do testamento não o concluíamos com segurança. De facto, para um homem tão atento a tantas pessoas, parecia de esperar que de uma forma ou outra recordasse a sua vida americana e algumas das coisas boas e más com que por lá lidara[2]. Mas há um autêntico bloqueio a esse período (a palavra Brasil não ocorre mesmo quando fala dos escravos; ocorrendo antes a palavra América). Pode-se supor que um segredo que tão cuidadosamente guarda tivesse relação com esse período. E isso leva a imaginar o pior.

Há vários aspectos legais relativos à transmissão dos bens que não entendemos e que por isso não comentamos. Sobre o testamenteiro, convém reter que acabou por ser o Pe. Remígio, seu irmão.

 

No codicilo e na declaração


Manuel Nunes fez mais tarde dois acrescentos ao testamento, o codicilo e a declaração.

O codicilo alonga-se por cinco páginas manuscritas e data de 2 de Março de 1759, sendo assim posterior à inscrição da lápide do seu túmulo.

Contém duas alterações de monta face ao disposto no testamento, a que modifica a ordem de retirar os filhos a D. Benta e a relativa ao seu funeral.

Em relação a D. Benta, desculpa-se do que a determinara com a fragilidade das mulheres – e devia ter em mente o caso da mãe de D. Benta – e afirma que a esposa não merece aquela disposição “odiosa e escandalosa”.

A nova ordem relativa ao funeral tem a ver com a Capela de Nossa Senhora da Lapa, que havia de estar em vias de conclusão.

Uma terceira determinação relevante é a relativa ao segredo. No testamento falava num valor de 200 000 réis, agora reduz o montante 48 000.

Outras disposições que estabelece são de menor alcance.

Sendo a dada altura mencionadas as filhas, a Joana já não o é, pelo que devia ter falecido.

A declaração é um documento de apenas duas páginas e data de poucos meses antes da morte de Manuel Nunes.

A disposição mais relevante é aquela em que manda que se compre o património do Pe. Remígio, ficando este apenas com o usufruto.

Na altura em que mandou fazer o codicilo estava doente, agora estava paralítico.



[1] No que devia ter sido uma das suas idas regulares àquela cidade.

[2] Recorde-se o que escreveu José Manuel Seabra da Costa Reis sobre a fortuna de Manuel Nunes: “A 8.9.1757, este casal instituiu no Cartório Notarial da Vila de Rates os seus procuradores em Braga, Barcelos, Porto, Lisboa, Vila de Rates, Rio de Janeiro e Minas Gerais, o que indica a existência duma fortuna bastante grande e dispersa”.

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