MANUEL NUNES E A CAPELA DE NOSSA SENHORA DO SOCORRO DE VILA DO CONDE
No testamento,
Manuel Nunes referiu algumas vezes a capela vila-condense de Nossa Senhora do
Socorro: ela era sua e queria ser lá sepultado:
E se falecer na minha freguesia de
Balasar, seja meu corpo sepultado na
minha Capela de Nossa Senhora do Socorro, em Vila do Conde, no meu jazigo,
onde quero ser sepultado, falecendo na dita freguesia de Balasar, é que se fará
isto.
Por meu jazigo talvez se entenda o de Gaspar
Manuel e familiares[1].
Manuel Nunes também era homem do mar. Mais adiante volta à ideia:
E sempre quero que no dia do
enterro me façam o ofício de corpo presente sendo
sepultado na dita minha capela de Vila do Conde, que será com os padres que
parecer ao meu testamenteiro, contanto que não sejam menos de trinta (…); e caso por impedimento justo não possa ir
sepultar-me a Vila do Conde, em tal caso se fará o dito ofício de corpo
presente na igreja onde for sepultado (…)
Capela de Nossa Senhora do
Socorro de Vila do Conde sobranceira ao rio Ave que pertenceu a Manuel Nunes.
Estipulou
também um donativo para a capela:
Item, deixo para ajuda das obras
que são precisas para a minha Capela de
Nossa Senhora do Socorro, em Vila do Conde, catorze mil e quatrocentos
réis, que será a dita quantia para satisfação da obrigação que têm os
administradores e por isso se entregará ao mesmo administrador que for da dita
capela.
Sepultura de Gaspar Manuel e
família.
Quis ainda satisfazer uma dívida de Andresa Carneiro.
Item, declaro que os
administradores do vínculo de Nossa Senhora do Socorro, que instituiu Gaspar
Manuel e sua mulher, são obrigados, cada administrador, acrescentar dez medidas
de pão e como a administradora que foi Andresa Carneiro não cumpriu esta
obrigação, conforme a instituição, estou e minha mulher obrigados ao dito
acrescentamento e por isso com dívida do casal se separarão bens dele em que se
consignem as ditas dez medidas.
Esta senhora
teria sido com certeza a madrinha de Manuel Nunes e presumivelmente quem lhe teria
vendido ou doado a capela.
Ele deixou
ainda seis missas de sufrágio para serem lá celebradas.
Manuel Nunes
possuía umas casas de que recebia uma renda anual de 6.000 réis, que devia ser
entregue na Rua da Torre, a rua fronteira à mesma capela.
Não é possível
saber a que obras se destinavam os 14.000 réis, mas talvez já pensasse nos
painéis da Infância de Jesus que a capela possui (veja-se abaixo).
Dois anos
depois de Manuel Nunes fazer o testamento, o prior de Vila do Conde, na memória
paroquial (a que chamou Epílogo Topográfico) escreveu sobre a mesma a Capela de
Nossa Senhora do Socorro:
A Capela de Nossa Senhora do
Socorro, situada no fim da Rua da Torre, em rocha viva, sítio alto, dominante
ao rio e mar, donde se descobrem as mais casas da Vila. Venera-se nela a imagem
de Nossa Senhora do Socorro, Santo António e São Pedro, em duas paredes
colaterais, e uma de pintura do Senhor Crucificado, com invocação da Saúde.
É de figura exteriormente quadrada
até ao meio, onde começa um grande zimbório. Tem uma plataforma e parapeito
bastantemente largo, todo de cantaria, com escada em bela ordem e disposição.
Foi fundada por Gaspar Manuel,
cavaleiro de hábito e piloto-mor da carreira da Índia. É cabeça de morgado e
hoje a administra Manuel Nunes.
A decoração do
interior da capela não era a mesma de hoje. Ainda não havia os painéis de
azulejo nem o retábulo neoclássico.
Os painéis da Infância
É muito
provável que tenham sido Manuel Nunes ou D. Benta a promover a colocação dos
excelentes painéis da Infância que decoram as paredes do interior da Capela de
Nossa Senhora do Socorro, que continuou a pertencer aos seus descendentes.
Se, em 1758,
ainda não existiam e se são de data próxima, a probabilidade de D. Benta, que
parece ter vindo residir para a Vila, ter investido na capela, é a maior.
Não é possível
tirar a limpo o relacionamento que havia entre Manuel Nunes e o Prior Falcão, o
pároco vila-condense, mas deviam conhecer-se, até em razão da Capela de Nossa
Senhora do Socorro. Manuel Nunes começou a sua Capela de Nossa Senhora da Lapa
antes de o Prior Falcão dar início às obras da igreja da mesma invocação.
Dificilmente não terão trocado ideias sobre as obras respectivas.
Painel de azulejo do Presépio na Capela de Nossa Senhora do Socorro
possivelmente da iniciativa de D. Benta.
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