A PONTE DE D. BENTA
No arquivo
municipal, há um documento do administrador, datado de 1843, que é um “Mapa
geral das pontes existentes no Concelho da Póvoa de Varzim”. Contém uma
informação muito completa sobre a ponte de D. Benta. Vamos copiar parte dela:
Cumprimento
total em palmos….…….…… 70 palmos
Largura em
palmos………………...….…… 20 palmos
Número dos
arcos………..……. 3 arcos de volta inteira
Largura do
vão……..…. 22 palmos no arco do meio, no dos lados 15
Material da
construção.……….…………...….… pedra
Estado de
conservação……....caída há mais de 20 anos
Época da
fundação…………..…..…….... desconhecida
Direitos de
passagem…………………… nunca pagou
O palmo
corresponde a 22 centímetros.
Como a ponte
estava caída há mais de 20 anos, deve ter ruído aí por 1820.
Seria a ponte
descrita neste documento a ruína da ponte original que D. Benta mandou
edificar?
Com certeza.
Por outro lado, teria D. Benta investido tamanha quantia numa obra em favor dos
seus conterrâneos, por pura generosidade?
Possuía uma
estrutura semelhante à da ponte da Gravateira, em Gondifelos, ou às pontes
d’Este, em Arcos e Touguinhó, todas com três arcos.
Ponte d'Este em Touguinhó, posterior em cerca de 75 anos à que D. Benta mandou construir em Balasar.
Deve
ter roído em 1821, por ocasião dumas cheias devastadoras.
Dez
anos depois, um visitador falava da ponte em ruína:
Ordenei ao Juiz da Freguesia
participasse ao Il.mo Senado da Câmara o estado em que se acha a ponte de D.
Benta, pois que depois da sua ruína estão sofrendo grande inconveniente os
povos que ficam dos lugares de além e no tempo de inverno em que não podem vir
à igreja nem também serem assistidos e sacramentados nas suas doenças.
As Memórias
Paroquiais de 1758, quando estava ainda vivo Manuel Nunes Rodrigues, informaram
que Balasar tinha “duas pontes de pau, uma no lugar da Igreja, outra no lugar
do Casal”. A “do lugar da Igreja” correspondia à que D. Benta iria reedificar.
Sabemos que a
ponte de D. Benta foi reconstruída várias vezes, uma em 1877; de facto, uma
acta da câmara poveira de 16 de Setembro desse ano tem por título “arrematação
da reconstrução da ponte de D. Benta”. As obras foram executadas pelo
mestre-pedreiro Manuel da Silva Machado, de Negreiros, Barcelos, e por José
Gonçalves Gabriel, mestre-carpinteiro da Póvoa de Varzim.
1878 foi o ano
em que começaram as obras da estrada municipal do Cubo ao extremo do concelho.
Mas só devem ter chegado ao Outeiro de Revelhe, ali no entroncamento donde se
pode seguir para Fiães.
De 1885,
chegou-nos a primeira planta conhecida para a ponte de D. Benta. Iria ser uma
bela obra de arte se tivesse sido concretizada, mas não deve ter passado do
papel. Era em ferro, para ser feita com carris usados. Foi aprovada em 4 de
Março.
Mas, com
aprovação de 22 de Junho do mesmo ano, há uma segunda planta, de concepção mais
tradicional, predominantemente em pedra. Desconhecemos se foi construída pois,
em 1905, uma acta da Câmara afirma explicitamente que a ponte continuava de
madeira (seria de madeira apenas o tabuleiro?)
O Pe.
Leopoldino, como já se recordou, escreveu que “a ponte de D. Benta foi
substituída pela actual, mandada construir em 1906 pela Câmara progressista da
presidência do prestigioso povoense Dr. António Silveira, sendo vereador Manuel
Joaquim de Almeida...” Mas há muito que a ponte não corresponderia ao que D.
Benta tinha mandado edificar.
Não se diz que
a ponte anterior caíra: talvez fosse só adaptada à nova realidade da estrada
municipal que então se prolongava em direcção a Gresufes.
Nos finais de
1909, a ponte “sofreu graves danos” e em 1925, deve ter voltado a padecer
problemas sérios uma vez que se fez um “projecto para a construção do tabuleiro
da ponte de D. Benta, em Balasar”.
O Sr. António
Machado contou-nos que quando era criança viu a ponte a ser levada pelas águas;
devia-se estar por finais da década de 1930. A ponte ainda voltou a cair na
década de 1960, como informou o boletim da Alexandrina, que então publicou uma
fotografia de muito má qualidade mostrando um pontão feito pelo povo para
obviar às necessidades mais urgentes.
Deve ter sido
nessa altura que se construiu a ponte actual, que parece obra de
mestre-pedreiro, sem intervenção de arquitecto. Basta para isso compará-la com
a do Vau.
A memória de D.
Benta pedia obra mais cuidada.
Balasar
homenageou D. Benta guardando dela memória no nome da quinta – Quinta de D.
Benta – e no nome da ponte junto à capela do Senhor da Cruz – ponte de D.
Benta. Fez-se um pouco de justiça, já que a vida dela não há-de ter sido fácil
e foi generosa para a sua terra.
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